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Crônicas Humorísticas do Rotary
- Meu Candidato à Governador
- Meus Companheiros no Rotary
- As "meninas" do meu Rotary
- O Senadinho do Rotary
José Augusto Berbert
Da coluna "Ultraleve" publicada no Jornal A Tarde de Salvador,
escrito por Rotariano José Augusto Berbert, RC da Bahia
O humor do jornalista José Augusto Berbert é universal como o próprio Rotary.
Alem de ser jornalista, nosso Berbert é autor de livros: "Memórias de um Ex-Excomungado"
(Segunda Edição, Setembro de 2000; Primeira Edição, 1986), "Um Repórter na Alemanha" e
"O Dia em que Salvador foi Bombardeada".
Segundo Jorge Amando, Berbert "é um intelectual de persistente e, por vezes, polêmica
presença na vida baiana, onde exerce com brilho e eficiência o jornalismo."
"A bom repórter, como é o caso de José Augusto Berbert, sem sair da reportagem, sempre
acaba por ultrapassá-la. E se faz legítimo historiador precisamente porque submerge no
grande acontecimento para buscá-la no lado indefinido e encoberto," segundo Adonias Filho.
Para nós Rotarianos seguem algumas crônicas, sempre humorísticas, do Berbert:
Meu Candidato à Governador
Sempre votei abertamente, nunca escondi quais foram meus candidatos a cargos eletivos.
Nunca votei nos eleitos presidentes da República, quem votou deve ter um peso terrível na
consciência.
 
Declaro que meu candidato a governador é Edmundo Lima. É claro que eu estou falando na eleição
para governador do Rotary, entrei para o clube este ano. Edmundo Lima tem todos os títulos
possíveis, é rotariano há mais de 30 anos e nunca faltou uma só reunião, almoço, seja lá o que
for. É o tipo do rotariano CDF, dedicado, competente e amigo de todos. Segundo Risodalvo
Meneses, é mais que rotariano, é "rotarado".
 
É meu amigo há muitos anos, sobrinho de minha querida Zuleide Lima, secretária da ABI, até se
aposentar, onde foi a mão direita dos grandes presidentes Ranulpho Oliveira, Jorge Calmon e
Afonso Maciel Neto.
 
Edmundo é enorme, tem quase dois metros, sempre foi gordo como eu. Uma vez, passou três meses
num Spa e perdeu 40 quilos. Recuperou tudo, não é à toa que se diz que "gordo que emagrece não
tem caráter". Tem todas as qualidades e títulos para ser um grande governador. E vai ser.
Ser governador do Rotary, para quem é iniciante como eu, é complicado, não é de toda a Bahia, é
do Distrito 4550, tem Rotarys na Bahia que pertencem a outro distrito, ainda não entendo bem
por quê. Seu mandato é de apenas um ano e, nesse período, tem obrigação de visitar todos os
clubes do seu distrito, uma maratona. Há quem adore, é bem recebido em todos os Rotarys de sua
região, é recebido com festas, almoços solenes, ouve discursos, faz muitas amizades.
O governador deve dispor de tempo, saúde e dinheiro, porque tudo sai de seu bolso. E é o único
governador que não é tratado de Vossa Excelência, rotariano chama outro de "companheiro".
Talvez, para que quem não é rotariano, a melhor explicação do que seja o governador do Rotary é
a do grande Otávio Mangabeira, quando foi o melhor governador que a Bahia já teve. Ele havia
tomado posse, os baianos estavam encantados com seu governo democrático, competente, dinâmico
e cordial. Foi visitá-lo o jovem Lomanto Júnior, que iniciava sua brilhante carreira política
em Jequié, e se apresentou a Mangabeira dizendo ser seu colega.
 
- Sou governador como o senhor. Por enquanto, do Rotary, mas chegarei a governador da Bahia,
afirmou prevendo o futuro.
 
Mangabeira o tratou muito bem, era seu amigo, Lomanto saiu feliz do palácio. Dona Ester, esposa
de Mangabeira, que estava ao lado, perguntou, curiosa, ao marido:
 
- O que é governador do Rotary, que eu não sei?
 
- É uma espécie de Imperador do Divino, aquele menino que se veste de D. Pedro, desfila pelas
ruas do bairro de Santo Antônio Além do Carmo e liberta alguns presos da Casa de Detenção.
Respondeu o grande governador, um dos maiores gozadores que tive a honra de conhecer.
Meus companheiros no Rotary
Escrevi o sobre Senadinho do Rotary Club da Bahia e recebi uma porção de e-mail e telefonemas
de amigos e leitores estranhando que eu, depois dos 70 anos, tenha decidido ser rotariano.
Acham que estou deslocado lá dentro, o ambiente é sério, sisudo, austero, o oposto de minha
pessoa.
Que nada!, respondo. O ambiente é o mais alegre possível, uma surpresa, todos são gozadores,
embora trabalhem seriamente, quando necessário. Fui proposto, sem saber, por minha sobrinha
Adélia Marelin, uma das mais entusiastas, depois que o Rotary deixou de ser "clube do Bolinha"
e mulher já participa de tudo, algumas foram até presidentes.
 
O ex-presidente Paulo Dacach me aconselhou a sentar, a cada almoço, num lugar diferente, a fim
de ir conhecendo os companheiros. Fiquei amigo de todos, vou falar sobre alguns, devia começar
pelas "meninas", mas fica para outra destas crônicas.
 
Pedro Sturm (tempestade, em alemão) é o vice-presidente do Senadinho, um polonês gigante, de
quase dois metros, muito forte, cara de menino com cabeleira totalmente alva, olhos azuis.
É o nosso Arnold Schwarzenegger, de quem é fã, não perde um filme do ator. E, por cima disso
tudo, é primo do papa João Paulo II, chama-se Wojtyla pelo lado materno, quem duvidar pergunte
ao cônego Luna, de quem foi coroinha, que o acha um sósia perfeito do papa, quando era jovem.
Durval Olivieri acha que ele toma banho com água de anil, para dar o tom azulado aos seus
cabelos brancos.
 
Raymundo Pereira é ilustre advogado, procurador do Estado, escritor de mérito, cronista da
Tribuna da Bahia, tem vários livros publicados, o rotariano perfeito, sabe tudo, foi presidente
do clube. É o nosso Petronius, o árbitro da elegância, morro de inveja quando ele chega
impecável, tudo em sua roupa é cuidadosamente combinado. Outro dia, foi de marrom, não teme que
a cor dê azar, diz que urucubaca é suportarmos FHC na presidência. Usava terno marrom-escuro,
camisa marrom-claro, gravata marrom-meio-tom. Sapatos e meias também marrons e até os botões do
paletó eram cobertos com o pano do seu tropical-inglês, um show completo, parecia que ia
desfilar, só não é modelo porque não quer.
 
Meu médico Maurício Nunes é o mais esperto. Chega com o almoço começado e recebe telefonema, por
seu celular, comunicando que um cardíaco sofreu crise e necessita de seus serviços urgentes.
Isso sempre acontece quando a palestra não lhe interessa. Há quem afirme que é outro rotariano
que lhe telefona, lá mesmo, sem ninguém perceber. Tentei pegar o flagrante, nunca vi nada.
O certo é que Maurício levanta-se, pede licença, seu dever como médico exige, e dá o fora.
Temos mais Novis que os Souza, Santos e Silva somados. Todos os netos do grande professor
Aristides Novis estão lá, se as eleições fossem disputadas, ninguém os derrotaria. É a família
mais tradicional do Rotary.
As "meninas" do meu Rotary
No Rotary Club da Bahia há belas e cultas companheiras. Todas entraram antes de mim, são
veteranas, figuras da maior projeção.
Consuelo Pondé de Senna é, atualmente, a mulher de maior destaque intelectual da Bahia.
Professora universitária, escritora, historiadora, com centenas de artigos publicados,
muitos livros, é respeitada nacionalmente. Sua atuação como presidente do Instituto Histórico
é prodigiosa, tem feito milagres com seu dinamismo. Sua coluna semanal em A TARDE é das mais
lidas. Já devia estar na Academia de Letras da Bahia há muitos anos.
É uma alegria para os companheiros, quando chega elegante, bonita, charmosa, simpática e
amável. Foi eleita recentemente para a diretoria, a primeira mulher diretora do nosso clube.
Eu a saúdo cantando: "Vôte que mulher bonita, vôte que mulher cheirosa".
Adélia Marelim é minha querida sobrinha, minha madrinha no Rotary. Quem a vê, tão bonita,
elegante, simpática, simples, sorridente, não acredita que ela seja uma das mulheres mais
cultas e preparadas da Bahia. É bacharela, fez todo o curso com notas máximas, procuradora
da União por concurso, professora de duas cadeiras na Faculdade de Direito (Direito
Previdenciário e Direito Trabalhista), formada em Línguas Latinas, formada em Música, poliglota,
é a maior autoridade em música clássica, especialmente Chopin. Vai à Europa todos os anos,
assistir às aberturas das temporadas de ópera em Viena, Paris e Varsóvia. Como ninguém é
perfeito, tem um defeito: é vegetariana, não come nada que tenha tido vida animal. Não bebe
nem leite, não toma sorvete, doces (porque feitos com ovos), nada que é gostoso. Só se alimenta
com folhas e frutas. Mesmo assim, tem um corpo perfeito, braços lindos, pena que use vestidos
quase sempre com mangas compridas, lembrando uma freira.
Angelina Garcez é a grande historiadora que todos conhecem e admiram, advogada, professora do
mestrado da Ufba, onde ensina Metodologia de Pesquisa Científica, vice-presidente do Banco da
Mulher, escritora, com 14 livros publicados, verdadeira sábia. E de uma simpatia insuperável,
queridíssima por todos.
Débora Machado é uma beleza de jovem. É difícil se acreditar que seja uma das mais competentes
juízas do nosso Tribunal Regional do Trabalho. É uma festa para os olhos, mais cheia de graça
que a Ave Maria.
Dinorá D'Araújo Berbert de Castro é outra mulher surpreendente. É minha cunhada, professora de
quase todas as nossas faculdades, até na de Medicina ela ensina em cursos de mestrado. Filósofa
das mais conceituadas e conhecidas do Brasil, tem muitos livros publicados. Suas pesquisas
sobre as teses dos médicos baianos é considerada prodigiosa.
Temos uma sexta colega, nossa querida dra. Cora Pedreira, que foi minha professora de Clínica
Médica, na Faculdade de Medicina, tão minha amiga. Infelizmente, está doente e não tem
comparecido aos nossos almoços e reuniões. Esperamos sua volta.
As nossas companheiras são as melhores, como estão vendo
O Senadinho do Rotary
 
Há cerca de seis meses, faço parte do Rotary Club da Bahia, indicado por minha adorável e
brilhante sobrinha Adélia Marelim, que foi minha madrinha. Entrei velho, "com a vaga nas
costas", como disse no dia da minha posse, estou adorando as reuniões, os companheiros
e o espírito que nos congrega.
 
Os nossos almoços são as quintas-feiras, às 12h30, no restaurante da Casa do Comércio,
defronte de A TARDE. Um grupo chega antes, às 11 horas, e se reúne no salão de espera.
É o chamado Senadinho do Rotary, tem diretoria própria, a direção do restaurante oferece
batidas especiais, com azeitonas pretas e verdes, todos se divertem contando as melhores
piadas e fazendo troças uns com os outros, numa amizade da mais fraternal.
 
O presidente do Senadinho é o dr. Juquinha Simões, médico e advogado, ex-reitor da Ucsal,
professor aposentado da Faculdade de Medicina da Ufba. Exerce a presidência com a mesma
eficiência com que dirigiu a Universidade Católica de Salvador. Sou seu amigo desde 1944,
quando entrei na Faculdade de Medicina e ele era dois anos em minha frente.
 
Foi meu professor de Fisiologia, mesmo como acadêmico, assistente do professor Aristides Novis.
 
Juquinha é um tipo antológico, não creio que haja outro igual em qualquer universidade do mundo.
 
Quando deixou de ser reitor, fez vestibular para a Faculdade de Direito, e passou a ser
aluno de antigos subordinados, inclusive de Adélia Marelim. Hoje, é advogado, mas guardou
o diploma e nunca se inscreveu na OAB.
 
Nas reuniões do nosso Senadinho, rimos muito contando suas façanhas como reitor. Uma oradora,
numa solenidade oficial, considerou que se o reitor da Ufba é magnífico, ele, da Católica, era
ainda mais e o chamou de "divino". Juquinha a interrompeu, afirmando que "divino" era o
caruru que a mãe dela preparava nas festas de São Cosme e São Damião.
 
A melhor lembrança que tenho dele, como reitor, é a inauguração da grande e bela piscina
que construiu na Escola de Educação Física da sua universidade. Foi uma solenidade e tanto,
compareceram todo o mundo oficial, autoridades e professores. O cardeal dom Avelar benzeu
tudo e perguntou como seria o ato inaugural.
 
- Vossa Eminência vai ver, respondeu Juquinha.
 
Entrou na sua sala e saiu de calção, jogando-se na água. Lá de dentro, exclamou:
 
- Está inaugurada a piscina da Universidade Católica.
 
Num ato de grande justiça, a Ucsal vai lhe conceder, no próximo ano,
o título de Reitor Emérito. Vai ser, merecidamente, o único reitor emérito do Brasil,
talvez do mundo. Com apoio e aplausos calorosos do Senadinho do Rotary Club da Bahia.
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